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- ([personal profile] helsing) wrote in [community profile] fragmentos on January 11th, 2013 at 02:03 pm
Dimitri Gurov I
Dan ([personal profile] helsing)
Nome: Dimitri Gurov
Categoria: Diário
Avisos: Referências a suicídio, auto-mutilação e uso de drogas.

• As histórias que eu tenho publicadas do Dimitri só o mostram muito a frente da linha do tempo, em anos que nem a gente viveu ainda, apesar de eu já ter soltado algumas drabbles por aí. Essa é uma das páginas dos diários que ele manteve durante a vida inteira desde os 13 anos, e o contexto está dentro do texto.



zoom


(20 março 2007)

Cheguei aqui ontem (à noite).

Mal faz três dias desde que saí do hospital. Os cortes ainda não estão secos, minha cara tá coçando e eu não posso fazer nada porque se eu coçar os cortes abrem de novo. Nem posso forçar muito os braços por causa dos pontos, então minha letra fica toda feia, mais do que normal, eu acho.

Yegor não foi me ver no hospital. Perguntei pro Kirill se ele foi pra lá enquanto eu tava dormindo, mas ele não me respondeu. Acho que é um não.

Acordei quase agora, ainda preciso arrumar minha cama. A cama do lado da minha ainda ‘tá vazia, mas tem coisas na mesinha do lado e nos armários. Não sei quem é que tá aqui, e sinceramente não sei o que esperar.

Queria saber onde eu estava com a cabeça quando decidi aceitar vir pra cá.


Primeiro dia foi... estranho.

Não consegui comer de manhã, então fiquei na cama mesmo. Acho que a garota que divide o quarto comigo só tava esperando eu abrir a janela pra entrar e não me atrapalhar para dormir, o que ela disse. Quis perguntar por que ela tá aqui, mas acho que eu soaria um pouco mal-educado. Ela só perguntou o meu nome. Depois disse que eu não precisava ficar tão tenso assim (juro que não sei como ela percebeu) porque aqui pelo menos não é como nos filmes. Eles não te dão mais choques ou te amarraram em cadeiras e te torturam ou coisas assim, pelo menos não nessa ala.

Depois que eu arrumei minhas coisas e finalmente fui comer, tive uma sessão de terapia em grupo, aquelas coisas que você vive vendo por aí, um monte de gente sentado em círculo dizendo o que tem de errado com a vida. Não sei bem se isso ajuda, digo, eu sei que eu tenho a tendência de me comparar com os outros o tempo inteiro, então ou vou diminuir os meus problemas porque a vida do sujeito do meu lado é pior ou... bem, não tem como me vangloriar de ser a pessoa mais fodida entre eles, mas acho que eu me aumentaria porque acharia que sim, mereço toda a atenção que quero. Ah, a Jun tava lá (a garota que divide o quarto comigo). A terapeuta disse que era para a gente dizer o primeiro nome, a idade e o motivo de estar aqui. Esperava que um monte de gente dissesse estar aqui obrigado, mas ninguém disse isso. Nem eu.

A lista de pessoas é mais ou menos essa:

- Yulia. 22 anos. Tem problemas com drogas e cortes tb, mas o primeiro é pior. Faz quase três meses que ela tá aqui, mas disse que tá bem melhor e quase não sente vontade de se drogar mais. Todo mundo ali pareceu feliz por isso, mas esse ‘quase’ me assustou um pouco.

- Jun, 23 anos. Ela disse (sorridente) que foi para lá depois de incediar o próprio apartamento. Causa pequenos incêndios desde criança, desde que seus pais biológicos morreram em um. Também disse que rouba, mas não sabe se é só um hábito que ficou ou se é realmente algo problemático (os cadeados que me disseram para colocar nas minhas gavetas e armário respondem isso, mas ela só riu quando os viu).

- Arkadi. 36 anos. Tentou suicídio uma vez, uns meses antes de chegar aqui, depois que o filho dele morreu em um acidente de carro. Fazia quinze dias que tava aqui e não via muita melhora.

- Boris. 26 anos. Não sabe controlar a própria raiva e mente o tempo inteiro, e apesar de nunca ter realmente feito nada, tem medo de machucar a família (se casou recentemente e quer ter um filho), então ele e a esposa concordaram em colocá-lo aqui. Ele não me pareceu um cara tão... assim, mas não sei.

- Eu, Dimitri. 17 anos. Meu pai tentou me matar quando eu tinha 13 anos e eu quis terminar o trabalho quando tinha 14. Me corto quase todo dia desde então, uso a maior parte do meu dinheiro comprando drogas e álcool, mas nunca tive a felicidade de uma overdose ou de um coma (eu deixei essa última parte de lado, mas foi o que pensei na hora). Como o mínimo possível e todo mundo diz que isso é um problema, mas eu não acho. Entrei aqui ontem. Há uma semana quebrei o espelho da casa do meu amigo, me cortei com os cacos e sangrei até ficar inconsciente.

E por que você fez isso Dimitri?, a terepeuta (Tanya) me perguntou, mas eu demorei um pouco para responder.

Meu irmão me fez prometer ficar sem me cortar. Eu aguentei uma semana, até ele brigar comigo porque eu não estava fazendo o suficiente (ele ficou a semana inteira sem me ver e a primeira coisa que falou quando a gente se encontrou foi isso, mas eu também deixei isso de lado). Não sei se tive mais raiva dele ou de mim.

E fiquei por aí mesmo. Mas eu sei que eu tive mais raiva de mim.

Acho que eles ficaram chocados com a minha idade. Dava para ouvi-los se mexerem na cadeira. A única que não ficou foi a Yulia. Ela sorriu para mim antes de sair, ainda não sei por que. Agora há pouco a Jun me disse que eu não preciso deixar os cadeados nas minhas coisas, já que ela só rouba de quem não gosta e nunca pegou nada de quem dividiu o quarto com ela. Não sei se deveria confiar, mas deixei o armário destrancado. Fiz um inventário das minhas coisas, amanhã de manhã eu checo de novo.


Uma nota: eu não me comparei com nenhum deles, e realmente não estou acostumado a perceber isso.
 
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